:: o pós-social

09:23



' no supermercado eu prefiro as máquinas de pagar manuais, assim não tenho de falar com as senhoras da caixa' - foi assim, directa, que uma aluna justificou porque o 'anti-social' é uma proposta de valor da AmazonGo (lojas automáticas). brilhante choque de realidade. ou não. se calhar, venderam-nos outra realidade que é fictícia: que temos de ser todos sociais, estar em todo o lado, falar com todos, ter mil likes, multi-perfis espalhados por uma mão cheia de aplicações, até ter - imaginem -, o telefone sempre disponível.. pois, eu assino pelo anti-social. ou pelo menos anti-telefone.

sim, cansado de falar ao telefone, de escrever mensagens em catadupla, dos grupos sem fim, do ecrã tantas vezes parecer mais um cartão de bingo, colorido com números em bolas vermelhas. anti-social? não, pós-social. cansado do imediato, do móvel, do virtual. não telefonem, venham tomar café e falamos nos olhos. não mandem mensagens todos os dias, deixem-me ter saudades de vos ver uma vez por semana. não me liguem três vezes seguidas até atender, eu quando quiser (não é quando puder, é quando quiser!) devolvo a chamada. sim, porque não tenho de devolver logo, se o meu tempo for mais precioso a fazer outra coisa. não gosto menos. apenas tenho menos tempo. simples.

confesso que ás vezes tenho saudades do hall de entrada das casas, com a cadeira ao lado da mesa do telefone. aí, não se faziam mil coisas enquanto se falava. não se telefonava do carro - a ouvir mal, ou do elevador - cheio de cortes, ou do meio do café - a ouvir outras conversas paralelas. aí, no hall, falava-se apenas, entre duas pessoas, focados, em exclusivo. a bateria não acabava, a chamada em espera não aparecia, as mensagens não apitavam no ecrã. aí, dava-se valor à presença, à dedicação, e ao próximo encontro que ficava logo marcado, mesmo que para dias depois. e nunca se falhava - porque já não havia maneira de desmarcar.

o imediatismo matou o romantismo. o teclado matou as cartas. o telefone matou a presença. a multi-tarefa matou a dedicação. saudosismo? não, antecipação. porque acredito que, como em tudo na vida, o ciclo está a começar a inverter-se. está a voltar o tempo em que falamos com menos pessoas - mas mais vezes com as que nos são verdadeiramente próximas. em que o nosso ciclo de "amigos" é mais pequeno - mas são todos daqueles que nos abraçam quando nos vemos. e que em vez da mensagem a correr, se voltou a escrever amo'te, num papel, a tinta, no fim dos recados que se deixam no hall de entrada..

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4 comentários

  1. adorei. obrigada por estas palavras, tão acertadas.

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  2. Desejo muito que isso aconteça. Eu participo nessa mudança ao ser "anti-social", ao enviar postais de natal pelo correio, ao me ir afastando das mensagens de parabéns virtuais e regressando aos parabéns cara-a-cara com os que realmente me dizem algo ♥
    Boas festas :)

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  3. Anónimo21.4.17

    Gosto imenso da forma como escreve. Parabéns!

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