:: dança, solta

18:45



gosto de pessoas que dançam. daquelas que se abanam ao primeiro ritmo que lhes salta ao ouvido. que é diferente das pessoas que vão dançar. as pessoas que dançam fazem-no a toda a hora, no carro no meio do trânsito, no balcão da cozinha a fazer o jantar, apenas no corredor enquanto se vestem, na janela durante o cigarro. ou, ainda melhor, enquanto namoram a caminho do quarto. nada é mais bonito que alguém que tem a noção do ritmo, que lhe entra no corpo e que liberta apenas alguns bocados de músculo, um ombro que levanta, uma anca que desliza apenas uns centímetros, duas pernas a quebrarem lentamente, ou apenas a cabeça embalada pelo tronco.

as pessoas que dançam não sabem como o fazem. não tem coreografia ou técnica. sai-lhes, solto, em forma inconsciente de movimento. às vezes ficam sem jeito, no meio da rua, com o vizinho a olhar. mas que se lixe, sabe tão bem, dançar no carro, na rua, no meio das vinhas, em cima do muro. ou tirar os sapatos e dançar na terra, na praia, na relva fresca. é terapêutico pôr a música bem alta e deixar-se ir pela casa, corpo solto a sentir o flow: às vezes acelerado, outras mais calmo, umas vezes mais ritmado, outras mais languidamente lento - e junto. gosto especialmente de ver alguém a dançar sem saber que estou ali (ou mesmo sabendo, puramente a ignorar que estou), mas no maior gozo de quem se sabe bonita apenas por ser assim, solta.  

atraem-me em particular as pessoas que sorriem enquanto dançam. que puramente estão a divertir-se, naquele bocado de corpo que mexe. ou mais bonito, quando nos fitam e se riem primeiro no olhar, e só depois no rosto, enquanto se aproximam. há pessoas que dançam assim o dia todo, estejam longe ou perto, visíveis ou afastadas. basta uma mensagem, um beijo, uma telefonema e sente-se o braço a puxar, a embalar no ritmo. a melhor dança? é essa, a dois. noite dentro entre jantar, um copo demorado, muitos beijos longos e amores prometidos. ou depois, no fim, a dança dos meus dedos nas tuas costas, lentos, até adormeceres, também com um sorriso, solto.

:: força

09:43



vem nos livros que o que liga duas pessoas é o amor que se tem ao outro. aquela vontade de querer estar, a ansiedade do abraço, as saudades da presença. vem nos livros que a dimensão do amor vem da intensidade do que se vive, e da falta do que não se vive. assim, é o manter da chama, desse ardor de quem se gosta, que faz com as histórias sejam eternas. que perpetuem as horas em dias, os meses em anos. acrescento eu, que mais que o amor, é a alegria do estar que verdadeiramente constrói uma relação. mais ou menos romântico, é a capacidade de fazer rir, de fazer aproveitar cada momento, de apreciar um pôr-do-sol, uma música, ou simplesmente um café quente logo pela manhã. essa coisa, tão simples, de ser bom viver ao lado do outro..

mas, depois do amor, depois do riso e da tontice, há algo muito mais sério que liga duas pessoas: o que somos um para o outro. há quem lhe chame energia, karma, força. pouco importa o nome. mas é esse papel, de suporte, que marca para a vida duas pessoas. quando, em algum instante, fomos uma ajuda num momento mau, fomos uma inspiração, quando abrimos barreiras, quando de alguma forma ensinamos o outro: a viver, a amar, a ser. e não em jeito de professor, de guia, ou de ser superior. pelo contrário, na forma mais humilde de ajudar, que é apenas estar ao lado, sempre, a dar a mão, a incentivar, a fazer acreditar.

o orgulho maior que se pode ter no que somos para alguém, é quando nos dizem que somos a força que segura, que somos a energia que faz sorrir. que somos quem ajudou a sair de um momento difícil, seja da saúde ao trabalho, à família, ou ao complicado que a vida ás vezes é. amar alguém é muito mais que sentimento, e tem a ver com essa dedicação, essa preocupação permanente em saber do outro. é estar atento a cada detalhe, desde o tom da voz, ao brilho dos olhos, ou - tão importante - à forma como um corpo se dá ao abraço. estamos de verdade ligados, quando se sabe ler o outro neste momentos. seja um filho, um pai, ou um amor,  é isso que nos liga para a vida - muito mais que os sentimentos, é o estar presente sempre. sem querer nada em troca. porque quando se ama, poder estar ao lado a puxar a mão já é a maior felicidade que se pode ter. sorte a minha, de o poder fazer todos os dias..

:: sempre mais

11:20



gosto de viver apaixonado. é tramado, às vezes complica, mas é a única forma de fazer valer a pena cada hora do dia. sou apaixonado pelas pequenas coisas da vida: aquele nascer do sol na janela, o cheiro do café da manhã, as gotas da chuva no vidro do carro, a imagem da ponte com o mar ao fundo, a música alto e eu a assobiar, a música baixo e eu a olhar-te. gosto de treinar os sentidos para estarem todos alerta, todos a apanhar os pequenos momentos que fazem um dia sempre diferente, sempre qualquer coisa mais bonita, mais doce, mais salgada. mais intensa. é isso que é viver apaixonado: é ser intenso. é ser sempre mais..

complica? muito. dá trabalho? porra, se dá. mas é tão bom. e é simples - é uma questão de gestão. é saber equilibrar uma vida entre a responsabilidade, os compromissos, a brincadeira, a parvoíce, o amor estável e forte, e a paixão, louca e bipolar. viver apaixonado não é andar sempre nas nuvens. pelo contrário, é andar bem assente na terra, mas todos os dias, no mais pequeno detalhe, sentir aquela emoção, e viajar, nem que seja por segundos, ao mais longe dos destinos. irritam-me as pessoas que baseiam a vida apenas no racional. ficam previsíveis, monótonas, sisudas, mesmo no maior sorriso - porque é lógico. e eu gosto mais dos risos puros, sem lógica, sem motivo aparente, só porque sim, só porque do meio do nada veio aquele aperto no peito, aquela vontade de rir, seja do nervoso do momento, da emoção, ou apenas do toque de um olhar que se cruza em nós.

porque bom mesmo é viver apaixonado por alguém. primeiro pela pessoa que somos. às vezes erramos, às vezes distraímo-nos, mas saber sempre que gostamos do que somos. e do que fazemos acontecer nos outros. depois, ser apaixonados pelos filhos. são tão mais bonitas as pessoas que vivem apaixonadas pelos seus. emocionam-me. como tu. e acredita, bom mesmo é viver apaixonado por ti. chega a ser irritante dizer-te sempre que te vejo: 'estás linda!'. mas porque estás verdadeiramente. pelo menos aos meus olhos. sabes, a voz embargada quando te digo que te amo, depois de acordar contigo, é pelo espanto, cada dia sempre novo, de como é bom sentir-te. como se o peito tivesse sempre um pouco mais cheio, um pouco mais feliz. sempre um bocado mais. é isso que somos: sempre mais. é isso que me embarga o amo't. e é tão bom..

:: não mudes

19:38



é quando amamos que revelamos o nosso maior egoísmo: querer que o mundo seja à nossa imagem. erro tão puro, de quase inocência, mas tão grande, de quase cegueira. é que a forma como gostamos, ou entregamos, é apenas isso - a nossa forma, que não é repetível por mais ninguém. por isso não o podemos esperar que aconteça, e muito menos exigi-lo. arrepia-me a alma sempre que alguém diz que quer mudar o companheiro. tanto egoísmo, mas mais que isso, tanta burrice. porque somos o que somos, e só por nós podemos mudar. assim, olhem para quem vos quer como a pessoa que é, com os defeitos e virtudes que tem, com a forma de entregar, de mostrar, de dizer que tem. é essa que podem contar para sempre. o resto é apenas a vossa ilusão do que outro é.

por isso, o elogio mais bonito que alguém pode dar ao companheiro é pedir para que não mude. nada. que fique exactamente como está, porque é assim que se descobriu a atracção, a ligação, a intimidade. foi assim que se descobriu o amor. claro, que com a vida, todos mudamos um pouco cada dia. mas aí, é algo que vem de dentro e não que é feito por pedido de alguém. quando duas pessoas estão juntas e mudam porque o outro pede, estragam-se. anulam-se. matam-se um pouco em cada mudança. quando duas pessoas estão juntas e naturalmente, cada uma, muda sem quase ter consciência que está a mudar, aí sim, crescem, amadurecem, ficam melhores pessoas. juntas.

foi assim que fiquei mais homem, mais amante, melhor companheiro, e até, admito-o, mais confiante. não porque mo pediste, mas porque mo despertaste. não porque algum dia disseste: muda isto ou aquilo, mas pelo contrário, por saber que era tanto para ti, que passei a confiar mais no meu instinto. foi assim que ficaste mais mulher, menos fechada no teu mundo, menos gajão, e até, tens de admiti-lo, mais feliz com o amor. não porque te pedi alguma vez que o fizesses, mas porque descobriste, por ti, que havia outra forma de entregar o olhar, o beijo, e até o corpo.
é bonito vermos no espelho a imagem a mudar e gostarmos do que vemos. mas mais, sabermos que é por ter alguém especial ao nosso lado, que nos potencia o que éramos no ponto de partida. podem haver mil problemas, indecisões, mágoas, dificuldades, mas quando sabemos que crescemos juntos, que somos melhores pessoas juntos, a viagem é sempre única. e esta mudança sim, mais que as palavras, ou o amor, fica para sempre.

:: parte de mim

09:00



há coisas na vida que se gostam.
que nos sabem bem ao sabor, aos sentidos. coisas que nos fazem felizes por momentos, ou por dias. uma música, um jantar realmente bem feito, uma paisagem ao por do sol, umas férias - curtas ou longas, aquele casaco no primeiro frio do outono, ou aquela camisa de linho nas primeiras noites quentes de maio. ou o toque dos pés na calçada quente nessa mesma noite. momentos que se vivem por minutos ou horas, mas que nos dão sensações de prazer, que ficam na memória curta e que nos fazem dar sentido aos dias: adormecemos com aquela imagem de um dia bem passado, bem vivido. e um sorriso feliz.

depois há coisas na vida nos preenchem.
o abraço da família, o riso dos amigos, um olhar de ternura quando se tem um gesto bom, uma mão que toca, quando se diz adeus. mais que momentos que se vivem, são sensações que despertamos nos que rodeiam. interacção bonita esta de dar e receber, de soltar risos em alguém, de emocionar alguém. uma brincadeira no trabalho, um telefonema na parvoíce, o permanente divertir, provocar, sentir quem nos rodeia. quase defeito, esta procura permanente de perceber o outro em frente, de o animar, de o confortar. ou simplesmente de cuidar. são especialmente bonitas as pessoas que se perdem a cuidar dos outros, dos que nos pertencem, sejam família, amigos, sobrinhos, ou apenas próximos. porque são esses momentos que nos dão sentido à vida: adormecemos com a sensação terna que fizemos o nosso melhor por alguém, que fomos o melhor de alguém.

mas único, são as pessoas que nos fazem completos.
sim, porque podemos ser felizes, ter o coração cheio, podemos ser independentes de todos, mas no fim do dia, há uma coisa que nunca seremos sozinhos: completos. podem vir mil filósofos das teorias modernas da independência, mas quem já amou de verdade, entende bem o que digo. porque quando se conhece a outra metade de nós, percebemos que fomos feitos assim: apenas metade. na espera do outro encaixe, da peça do puzzle que fica ali, exactamente no abraço perfeito, no corpo que se sente colado, no beijo que é energia, na pele que se toca e dá choque.

não é alguém igual a nós, isso é a nossa cópia. não, mais que isso, é alguém que sendo diferente, tem os pontos de encaixe perfeitos em nós. que tanta vez dão faísca, que arranham com as dificuldades da vida, que magoam com as merdas que fazemos torto, que quase partem com os timings errados. mas é a única peça em que sentimos o alívio estranho de que não há mais nada para ver, para procurar. aquela em que para estar em sossego, apenas precisamos do nosso canto, os dois, sozinhos. em que a conversa nunca acaba, o riso é sempre parvo e bonito, o amor é sempre lamechas e exagerado, em que o desejo é sempre louco e permanente, só superado pelo sossego do sono junto. são esses momentos, tão simples - basta eu e tu - que me dão sentido ao corpo: em que adormeço com a certeza rara que é ali, parte de ti, que sou maior.

:: desejar

13:47



preciso de te desejar, de te querer, de ter vontade de te amar o corpo, todos os dias, todas as horas. faz-me sentir vivo. faz-te sentir bonita. basta um bocado da tua pele a tocar na minha, uma mão que pouso mais forte na tua perna, um abraço que prende mais na tua cintura, um dedo que te toca naquele ponto preciso do pescoço.. ou apenas um olhar que se cruza entre um lábio mordido. e depois ficas com aquele teu sorriso, em jeito de aviso: pára se ser assim, tarado! e lá continuamos o dia, com aquele sabor a metal a ficar na boca, a dizer que logo mais, quando tivermos tempo, e cabeça, nos vamos amar. mas o desejo, esse, está lá. fica lá. vive lá. a toda a hora. porque é também uma forma muito bonita, e muito necessária, de se amar.

irritam-me as teorias que dizem que há horas, rituais, modelos, regras para se amar. que tem de haver um mínimo e um máximo por semana, uma hora ideal, uma posição, aqueles preliminares, ou aquelas técnicas. foda-se, o desejo, quando existe, não precisa de tanto disfarce, nem de tanto impulso: solta-se logo que pode, como um leão fechado numa jaula, sempre a rugir, sempre a querer, sempre faminto. não só do corpo, mas acima de tudo da alma. porque o desejo que estou a falar não é apenas o físico. não, é o outro. que mais do que carne, quer emoção. mais do que prazer, quer entrega. mais do que gritos mudos, quer olhares perdidos no outro.

entendes por isso, porque te desejo sempre? quando sobes as escadas à minha frente e me deixo ficar um passo atrás, apenas para te ver subir degrau a degrau. quando te vestes pelo corredor da casa e fico a ver a roupa a vestir e despir o teu corpo. quando tomas o café na cozinha e os teus pés deslizam pelas minhas mãos, por baixo do balcão. quando te incendeio, apenas a descrever a minha vontade de ti, no meio do jantar, naquela esplanada sobre o rio. ou quando te agarro o pescoço, em qualquer elevador, apenas para te parar o olhar no meu. ou mais sincero ainda, quando acordas nua, ao meu lado na cama. o sol na tua pele, aquece a minha. o teu jeito vagaroso de te espreguiçares, as tuas pernas esticadas pela cama, o teu pescoço a rodar lentamente, até me veres o sorriso. até me sentires o sabor da manhã nos teus lábios. até te dizer bom dia, com o meu desejo..

:: escolher amar

22:44



'és viciante' é um elogio perfeito. mas que tem tanto de bom, como de mau. é como amar: é a coisa mais simples da vida, mas também a mais difícil. porque, tal como no vício, quando se gosta é fácil deixar-nos levar no prazer do imediato - o riso é sempre fácil, a alegria anda sempre por ali, aquele olhar que é sempre o mais doce, aquele corpo que é sempre o mais quente. é fácil apenas amar. o difícil é continuar a amar. porque, tal como no vício, rapidamente podemos ficar dependentes, esfomeados a cada segundo, carentes a cada minuto, a precisar das palavras, dos beijos, das músicas, do sexo feito carinho. puro vício que se instala, e que chega a ser irritante na falta do outro - aqueles momentos estúpidos em que inventamos desculpas só para poder ouvir, olhar, abraçar a outra metade de nós.

mas mais que amar, é preciso escolher amar. que são coisas diferentes. porque amar é apenas esse vício espontâneo, entre risos e vontades do dia. já escolher amar é uma decisão permanente: é assumir um compromisso que tem de aguentar os momentos bons e os maus. os favores do destino - quando nos juntam, e os contratempos da vida - quando nos separam. é a diferença entre a vontade que se sente num momento - que dispara em gestos fáceis: "beija-me, ama-me e abraça-me depois"; por oposto a uma intenção que se pensa para a vida - que se faz de gestos eternos: "beija-me, ama-me e dá-me um filho"..

é por isso que tenho tanto orgulho nas pessoas que têm coragem de escolher amar. como tu, como eu. vai ser fácil? não. podemos dar grandes quedas? de certeza. aliás, já demos tantas, até cicatrizes já temos. daquelas que doem sempre que se tocam, mas que se sabem apenas parte da escolha. e vive-se sossegado mesmo nos dias maus, porque se tem a certeza de um caminho: cheio de curvas, de cruzamentos traiçoeiros, até de estradas por fazer. que dá trabalho, que cansa, que nos deixa frustrados quando não conseguimos avançar. mas que é o nosso, pensado para a vida - feito de gestos que serão eternos: por isso, vem, beija-me, ama-me e dá-me um filho..

:: 'sozinho', não 'só'

21:14



por muito que pareçam similares, "estar só", e "estar sozinho", são quase opostos.
quando se está só, sente-se uma tristeza imensa, uma falta de alguém que seja a nossa procura, o nosso objectivo de vida: uma amizade, um amor, ou uma família. quando se está só, pode-se viver o mais bonito dos momentos e continuamos a sentir o vazio de não ter alguém que, longe ou perto, presente ou ausente, seja a pessoa que gostávamos de partilhar aquele bocado de vida.
estar sozinho é diferente - porque é um estado de alma transitório. é quando se passam aqueles momentos apenas connosco, entre o jantar de amigos de ontem e o beijo de amor de amanhã. quando se está sozinho, especialmente quando é por opção própria, sente-se um alivio imenso de poder fazer o que se quer, como se quer, quando se quer, porque haverá sempre alguém que nos acompanha. para quem "está - apenas temporariamente - sozinho", mesmo no meio do vazio, sentimo-nos completos, realizados na forma como vivemos, como partilhamos, mesmo no silêncio.

na correria dos dias e das agendas cheias, pode-se disfarçar a falta do que queremos: entre risos e abraços amigos, tudo parece menos menos urgente. mas também é aí que realmente damos valor ao que precisamos. porque não é de um abraço, é daquele abraço. porque não é de quem nos faça rir, é daquele riso que é igual ao nosso. não é de um beijo de carinho, é daquele beijo em que se sente o ar a fugir. a certeza de uma paixão maior, é quando nos sentimos sozinhos, mesmo no meio dos nossos. é aí, que percebemos que a vida só faz sentido ao lado de quem amamos. que cada alegria vivida com os outros, é sempre incompleta, pela falta de partilha da nossa outra metade. confusa esta coisa de viver: quando se está longe de quem queremos, sentimo-nos sozinhos no meio dos amigos, mas completos nos momentos de solidão..

engraçado é ver como a sociedade estranha ver alguém sozinho: "vem mais alguém para o almoço? está acompanhado? aguarda por alguém?" - como se uma pessoa não pudesse, sozinha, desfrutar de cada momento de uma forma positiva. por necessidades do destino, e por vontade própria, tenho passado muitos dias sozinho. porque às vezes sabe bem ir aquela esplanada apenas comigo, passar o dia naquela piscina apenas a ler, a ouvir música. ver aquele pôr-do-sol em silêncio - a ouvir-me no silêncio. ou como ontem, ali a ver aquele concerto, apenas eu, sozinho na cadeira, mas tão completo em cada música, em cada lágrima, misto de emoção do momento, e da falta de quem se queria ali. porque quando se está sozinho (e não "só"), há sempre alguém que nos acompanha onde é mais importante: cá dentro.

:: apanha-me, se conseguires.. que eu gosto

08:05



às vezes temos de saber não nos levar a sério. especialmente nas coisas sérias. o saber brincar, o saber falar com ironia, desdramatiza, mas acima de tudo, desarma. e esse deve ser o clic mais fácil para arrancar um riso: desarmar alguém. no meio das declarações mais profundas, se soubermos ser irónicos, tornamo-las inesquecíveis. dizer a frase mais séria e apaixonada, mas conseguir soltar uma gargalhada no fim, é a declaração perfeita. mistura inteligência, paixão e bom humor - touché. o mesmo quando se faz amor. misturar a luxúria e o desejo, com carinho e ternura, é perfeito. mas se ainda por cima conseguirmos rir durante aquilo tudo.. - touché touché.

nas conversas, além da ironia, gosto também de chamar nomes. porque é uma forma honesta, mas leve, de dizer - porra, gosto de ti pá, mas está a irritar-me! há uma lista grande de palavras (idiota, parva, xoné, estúpida..), que ditas com o sorriso certo, tem uma forma carinhosa, quase doce, de insultarmos alguém. não é uma queixa, é uma constatação. como na primeira vez em que te disse "amo-te". lembro que estava difícil, porque nenhum de nós queria ir por ali. armados em independentes, muito seguros que o nosso coração não se deixava ir assim em poucos dias. raios partam, afinal quem eras tu para me deixares assim de quatro? mas deixaste. e lá me fugiu a palavra da boca, mas sempre nesse misto quero-te/irritas-me. ias a sair do carro, segurei-te a mão, e disse-te nos olhos: "amo-t, idiota" - e tu ficaste com um sorriso lindo. desarmado..

por isso me diz tanto esta música: este permanente - "sou bom/boa demais para ti, mas quero-te comigo, porque és tu que sabes mexer-me nos botões certos" - quase uma provocação, desprezo de brincadeira, vontade contida, mas sintonia tonta. sempre que a ouço, apetece-me pegar em ti, apanhar-te pela cinta e morder-te o pescoço. sei que vais dizer "larga-me", desatas a rir, e pulas pela casa a fugir de mim. e lá vamos nós, jogamos à apanhada, entre provocações, picanço genuinamente bom, gargalhadas parvas e sempre aquele olhar de crianças traquinas, a dizer: "apanha-me, se conseguires.. que eu gosto" 

:: o instinto

06:43



as coisas maiores da vida não são construídas por nós - nascem em nós, que é bem diferente. porque não temos qualquer tipo de controle sobre elas. é assim na família, nos amores, ou até nas coisas mais banais, como os sabores que nos prendem. em todas estas coisas que sentimos, que temos prazer, carinho ou vontade, nunca há uma acção nossa para que começassem a ser sentidas. pelo contrário, é algo que vem de dentro, algures por ali, entre a alma, o coração e a capacidade de absorver a vida.

é assim no amor. começa num olhar, num desejo, num riso, e apenas sentimos que algo está ali a começar. depois vem o encaixe, os dias grandes em que tudo foi bom, os dias pequenos em que tudo foi difícil, mas em que chegamos ao fim, juntos. sabemos que estamos perdidamente entregues quando não conseguimos explicar o porquê - pergunta-se "o que amas em mim?", e a resposta é "não sei.. sei o que gosto em ti, o que me cativa, o que me prende. mas porque te amo? não sei explicar". porque é esta não racionalidade que torna as coisas grandes. mais que um sentimento que se percebe, é antes um instinto que vem de dentro, sem controle, sem botões on/off. com muita dedicação, cuidado e vontade, claro. mas a essência, aquele rasgo na pele, aquele nó na garganta? esse, raios o partam, tem vida própria..

mas mais intenso é o instinto paternal. e aqui não falo de gostar muito ou pouco de crianças - aqui falo de querer ter a minha criança, o meu piolho.. loucura, sentir esta coisa a crescer cá dentro, esta vontade de ter um ser que seja meu, que eu mime, que abrace, que eduque. quase transe, no meu caso, começou num filho que não sendo meu, já o é. já o cuido assim. preocupado com tudo nele, a toda a hora, na ânsia de um riso, de um olhar para mim, de um abraço.. ou como no primeiro dia em que me chamou pai. e todos dias, cada dia mais forte, sinto cá dentro, bem lá das entranhas, esta vontade de criar. verbo perfeito - criar. realização perfeita - poder criar a nossa filha, juntos. vê-la crescer, fazê-la uma pessoa linda, inteira, rabugenta, mimada, coração enorme, e este nosso olhar, que vai receber. e que um dia se orgulhe do pai, e da mãe, como nos orgulhamos dos nossos - é este instinto de passagem que não conhecia. e que me faz mais homem hoje. e melhor pai, amanhã..

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