:: d'elas

janeiro 25, 2013



"queridos gatos da noite paulistana, não tenham medo de tratar as mulheres bem! 
não fiquem apegados à ideia de que se você for gentil a moça vai se apaixonar(zzz)..
“gentileza gera [apenas] gentileza”; amor e paixão levam outros ingredientes bem mais complicados, não se preocupe. elogio é sempre bem-vindo. respire fundo, você consegue! evite expressões infantojuvenis e, se estiver nervoso, assuma, diga com todas as letras: “tô meio nervoso”. é melhor do que parecer um personagem do filme American Pie. perguntas do tipo “e ai, que-que-cê-curte?” devem ficar de fora do primeiro, do segundo ou do quinquagésimo nono encontro. mulher a gente desvenda. não pergunta.

prefira sempre fazer convites dóceis e directos, do tipo “passa a noite comigo hoje?”
além de surtir mais efeito, é gramaticalmente bem mais agradável do que coisas como “quer subir?”. mas gato, se você tem um compromisso às oito da manhã, avise a moça com antecedência!! nada pior do que ser colocada para fora com o raiar do dia sem aviso prévio. alimentar a pessoa é obrigatório. oferecer uma toalha é de bom-tom. se preocupar com o orgasmo dela melhora a sua pontuação na tabela geral. se você é do tipo traste assumido, homem que está na vida curtindo um momento pombagira, pode deixar isso claro. a verdade liberta! não tente parecer o Harry Potter se você está mais para Charlie Sheen. 

tá achando tudo isso mimimi demais para um primeiro encontro? 
tenha sempre em mente que essa pode não ser a mulher da sua vida, mas pode ser a mulher da vida do seu melhor amigo, a sua futura chefe ou até a melhor amiga da mulher da sua vida. e você sabe.. as notícias correm. 

* d'aqui: revistatpm.uol.com.br/blogs/euliatulias. foto da M.

:: bobos e sérios

janeiro 23, 2013



escolho os meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila: tem que ter brilho! tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. deles não quero respostas, quero o meu avesso..

escolho os meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. 
quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de crescimento, mas que lutam para que a fantasia não desapareça. não quero amigos adultos nem chatos. quero-os metade infância e outra metade velhice. crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto: e velhos, para que nunca tenham pressa. 

tenho amigos para saber quem eu sou. pois se os vejo, loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a “normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

* Oscar Wilde

** Stacey Kent - Ces Petit Riens

:: acústico

janeiro 22, 2013



hoje o telemóvel ficou no silêncio na primeira reunião da manhã.
e assim passou o dia, por distracção, até ao fim da tarde. dia produtivo, numa paz aparente e num silêncio deveras inspirador. entre chamadas não atendidas, mensagens por ler e uns quantos avisos de aplicações, nada se perdeu, deixou de se fazer, ou se destruiu.
com tanta tecnologia, criamos demasiadas dependências, que, se num primeiro momento nos facilitam o trabalho, encurtam distâncias e aumentam produtividade, numa fase seguinte, criam dependência, distraem, quebram o raciocínio  a execução de uma tarefa, a lógica de um pensamento. tenho reuniões em que já ninguém está só na reunião. chego a receber emails de quem está na própria reunião..

o mesmo acontece na vida pessoal. tecnologia a mais cria uma dependência de quase partilha obrigatória, imediata, instantânea, numa Ã¢nsia de feedback, numa feracidade de exibicionismo social quase inconsciente. não se quer perder nenhum momento, nenhum registo, nenhuma foto, nenhuma sensação.

mas com tanta necessidade (e possibilidade) de registo, perde-se o essencial: viver cada momento, partilhá-lo sozinho - ou apenas com quem se está -, sem entropias, sem distracções, quebras de frases, desvios de sorrisos. o like ao vivo, no brilho do olhos de alguém, ainda não foi substituído por nenhuma forma digital. nem será.
amanha vou deixar o telemóvel no silêncio novamente. 
e acho que assim vai continuar por alguns dias..

:: eu faço samba e amor até mais tarde

janeiro 15, 2013



quando ele acordou ela já tinha ido, mas deixou-lhe o beijo de bom dia, em cima da mesa do café, num pedaço de papel de pão:
“eu poderia ter saudade daquele abraço, molhado de pôr-do-sol, abençoado pelo céu, pelo mar, pelo ar. saudade daquele "a gente se fala no olhar", das infinitas caricias, do night and day, da nossa quinta-feira, da coxinha no café da manhã.. já temos um passado, meu amor. eu, você, nós dois. temos os nossos lugares, as nossas manias, os nossos detalhes.

mas o melhor de tudo é essa borboleta que eu sinto aqui dentro de mim, toda vez, com saudade de tudo que a gente ainda pode viver. muito obrigada por ser esse domingo de sol, que enche minha alma de alegria, sempre, como se fosse a primeira vez. 
perdoa o drama e vê se não desiste de mim..”

* d'aqui: poeme-se.tumblr.com

:: coisas com alma

janeiro 10, 2013



há sítios que têm vida. que nos fazem sentir qualquer coisa diferente. quase que têm alma.
gosto particularmente daqueles sítios que nos fazem estar com nós próprios. que nos limpam a cabeça e nos nos fazem alinhar os pensamentos de uma forma positiva. inspiram. passando os preliminares, em lisboa, gosto particularmente dos pontos que nos fazem sair da cidade, estando dentro dela. quase como um vidro protector, em que vemos a cidade e o rio, mas que por momentos nos fazem estar numa cápsula, que nos isola do ritmo frenético mesmo ali a correr nas nossas costas. os de sempre: o àmargem, a cair no rio, o jardim do museu de arte antiga, ali a olhar o rio, o miradouro da graça, com o rio lá ao fundo, e a esplanada do hotel do chiado, ali com o rio de lado. é escolher uma hora calma, com poucas pessoas, e de repente estamos numa espécie de recanto de sossego. acho que é a força da paisagem, a encher-nos o campo de visão, que nos liberta do dia-a-dia. e deixa espaço para nos focarmos em nós.

melhor mesmo só aqueles sítios que nos fazem ficar suspensos sobre a cidade. dois em particular: duas pequenas piscinas, de dois pequenos hotéis, muito similares no espaço, mas diferentes na utilização. primeiro a piscina/bar do memmo alfama. escondido no meio da subida para o castelo, entra-se no hotel, quase como uma gruta que se abre para um penhasco sobre a encosta de alfama. a piscina serve apenas de espelho de água, que acaba no rio, como se estivesse ali mesmo à mão. truque perfeito de arquitectura. com a música a condizer, e o espaço quase vazio, sente-se paz. respira-se mais leve. idiotas os que vão lá só passar o tempo. ali tem de se ganhar tempo. entre um gin que se bebe devagar, uma paisagem que nos esmaga, e o burburinho da cidade lá em baixo, fica aquele semi-silêncio estranho, mas bom: o nosso silêncio - quando temos (finalmente) tempo para ouvir-nos a pensar.

a perfeição, passar um dia de sol na piscina do telhado do altis belém (ou rooftop, como dizem as modas). dois livros, musica nos ouvidos - calma, mas bem disposta -, e apenas estar. porque além do silêncio, quase que nos sentimos dentro do rio. e ganha-se o ritmo lento dos barcos que passam a deslizar, elegantes, sobre a água. o coração acalma a pulsação, mas melhor, a alma acalma o ritmo. ali, sozinho, ganha-se tempo: porque não há pressa de ir, porque não há gente a andar, porque não há carros a passar. ali, move-se tudo ao ritmo do sol. lento, vagaroso, quente. estica-se o corpo, inspira-se a brisa fresca do rio e bebe-se uma água gelada. quase purificação, é um dia de encontro. bom ou mau, falamos para nós, sem falar. têm-se as ideias que andavam a palpitar mas não tiveram tempo para sair, lembram-se as pessoas que queríamos dizer "saudades de ti" e não tínhamos tido tempo para o escrever. acalma-se a ansiedade por quem queremos ter ao nosso lado, mas que ainda não chegou. ali, fazemos as pazes connosco. um dia inteiro, em semi-silêncio a alinhar a nossa espinha dorsal. e a encontrar o que mais importa. que não é ter coisas. é antes saber deliciar-se com a alma das coisas.

:: assobiar

janeiro 02, 2013



na ilha grega de Antia, a língua assobiada é a língua oficial. gritar é muito raro por aqueles lados, pois segundo a tradição, os habitantes estão sujeitos a serem multados se não souberem lidar bem com a fala assobiada para executar determinados trabalhos. .
assobiar enquanto se trabalha pode irritar quem está por perto, mas está provado (há sempre um estudo nestas coisas) que ajuda a melhorar a performance. parece que o cérebro tem tendência para bloquear quando trabalhamos sob pressão, e que o exercício de assobiar descontrai os músculos, melhora a respiração, e oxigena o cérebro. voilá!!

mais que uma reacção física, assobiar traz qualquer coisa de emocional: andamos mais ritmados, mais bem-dispostos, com um tom de fundo a marcar a passada, quase música a sair dos lábios. gosto de assobiar no carro, no banho, e especialmente no trabalho. o assobio não distrai (como cantar), mas cria um embalo criativo de fundo. começar o ano a assobiar - não para o lado, mas para a frente - só pode ser bom presságio.. 

:: sozinho vs solitário

dezembro 03, 2012



"porque é que havia de me sentir sozinho? raras vezes na minha vida, desde que me lembro de mim, tive um sentimento de solidão. e não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. não me aborreço."*

"aos 40, sei que a 'felicidade' é uma hipótese estatisticamente improvável  ou efémera ("and I should know because I've seen them, but not often"). aos 40 anos, vivo com 'expectativas diminuídas', diminutas, em diminuição. já sei que não sou melhor nem pior do que os outros, sei ao milímetro aquilo que valho, sei perfeitamente que não vou deixar vestígio, que desapareço quando morrer a última pessoa que me conheceu. e nada disto é trágico. pessimista e misantropo, é verdade que que vou ficando sozinho. mas, aos 40 anos, não compreendo esse medo de ficar sozinho, que me inquietava ainda aos 33.

"ficamos sozinhos quando somos exigentes. ficamos sozinhos quando não mentimos. 
ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. é um preço que estou disposto a pagar. e há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me enganei, e dez pessoas é um mundo.."**

.. subscrevo tudo isto, mas no entanto, não deixo de ter saudades de quem sempre me fez companhia. porque estar sozinho só não é solidão quando é um estado transitivo. e não permanente.
António Lobo Antunes, Tabu

** Pedro Mexia, Expresso


:: seja leve.. e sexy

agosto 01, 2012



queria escrever no bilhete de aniversário duas palavrinhas apenas. ao invés de um “feliz aniversário” e “tudo de bom” ou “de lindo”. procurei fundo no meu imaginário um binômio-guia.

um dos primeiros? “Doçura e força”.
raro encontrar gente doce e forte.
quer dizer, a doçura tende mormente para certa lassidão, isto é, difícil ver gestos docemente agressivos, brigadeiros de aço, um barquinho de papel assobiando no mar.. maus exemplos. outro: ninguém diz “eu te amo” com quase raiva. melhor: ninguém dá um carinho sem sorrir.
pelo contrário a força resvala – ou é resvalada – muitas vezes por incerta brutalidade. como se o forte aguentasse qualquer coisa – que de fato aguenta, mas aguentar não significa sair incólume.

depois sobreveio-me: “Pragmatismo e mistério”.
lendo agora, parece que pragmatismo é uma variação da “força” e “mistério” uma tatuagem na coxa da doçura. é que pragmatismo pode destituir a “força” daquela preocupação da falta de medida.
 pragmatismo me parece certa dosagem da força, o mínimo da Escala Richter. e mistério. bem, mistério não tenho a menor dúvida: é doçura!

então, depois do abraço e o presente, tinha escrito: “Seja leve e sexy”.
.. ainda agora acho infalível.
leveza pode reunir tudo: doçura, força, pragmatismo e mistério. e, então, voilá: “sexy”.
porque já Rubem Braga avisou que tudo é encantador: o passarinho, o homem no mar, a moça na janela. não existe nada ordinário no vasto mundo, senão, quiçá, os olhos de quem vê. assim, nada custa ao passarinho cantar, o homem furar ondas e a moça existir.
dar um empurrãozinho no olhar. desejar o desejo.. mas ter a leveza de não se importar, esquecer e sem querer, assim, de leve.. ser sexy.

porque sex appeal é aquilo que, ou você tem, ou não tem. não se aprende.. se nasce.



ps: se conseguir rir e entender ou explicar, está de bom tamanho o texto. é que toda a convicção pode ser defendida com um sorriso e alguma dúvida. assim, feliz aniversário: “Bom-humor e inteligência” pra você. '
´roubado descaradamente ao ora bossa..

:: la vie en rose

julho 24, 2012



Linus: - why are you looking at me that way?
Sabrina: - all night long I've had the most terrible impulse to do something.
Linus: - oh, never resist an impulse, Sabrina, especially if it's terrible.
Sabrina: - i'm gonna do it... There!
Linus: - what's that for?
Sabrina: - we can't have you walking up and down the Champs Elysees looking like a tourist undertaker! and another thing, never a briefcase in Paris and never an umbrella. there's a law.
Linus: - how am I ever going to get along in Paris without someone like you? who'll be there to help me with my French, to turn down the brim of my hat?

Sabrina: - suppose you meet someone on the boat, the very first day out? a perfect stranger.
Linus: - i have a better suppose, Sabrina. suppose i were ten years younger. suppose you weren't in love with David. suppose i asked you to... i suppose i'm just talking nonsense.
Sabrina: - i suppose so..
Linus: - suppose you sing that song again. slowly..



:: amor digital

julho 12, 2012



hoje já não se comunica, contacta-se.
o dedo leva-nos a conta-gotas até ao outro, um conta gotas rápido de mais, uma espécie de soro que entra de repente e nos cria a fantasia de sermos donos do mundo. temos uma espécie de dependência digital do aparelho e do outro, e do efeito que o meu dedo causa no outro. é giro. infinitamente giro, como infinitamente mortal porque, como qualquer outra droga, vicia, desarma e evita que as pessoas se olhem e se saboreiem com o olhar, se deliciem no prazer dos gestos, na forma a informar a forma...
e o contacto virtual e digital, através de todos os aparelhos domésticos e portáteis que temos ao nosso alcance, não é nunca a forma certa de estar com o outro, não é a mais certa mas, a mais fácil e curta. ninguém ama alguém tipo ET ao toque do dedo no alfabeto, ninguém constrói amizades, inventa relações, governa a vida se não for à moda antiga, cumprindo etapas, marcando encontros, pensando a dois, saboreando uma santola e umas amêijoas numa saudável tagarelice ao fim da praia. ou tocando. não no inventor de sonhos, mas na mão do outro.

tem-se medo de comunicar, tem-se medo deste encanto e deste veneno, absorvemo-nos nas mil e uma formas que podemos dar às letras. tornamo-nos poetas e músicos, mágicos e malabaristas de letras pessoais e intransmissíveis na nossa versão virtual de circo encantado e o pior é que as tomamos como suficientes para aproximar, para estar perto, para tornar ainda mais saudosas as saudades. gostamos das palavras, isso sim, gostamos tanto das palavras, da sua doçura velada, que estamos longe de perceber como são finitas quando se confinam a ser só palavras fechadas em cofres digitais. apaixonam, redimem, sobram, faltam, mas não são nossas, são iguais às do outro, iguais às do gajo na toalha estendida ao lado da nossa, estranhamente iguais. o que as distingue são as emoções que em nós se fazem, o que as distingue é a nossa capacidade de pegar nelas, descer ruas a pino, encontrar a tal esquina prometida e fazer delas das suas metáforas, das cores, das imagens, das pessoas que andam e falam e têm vida própria.

eu cá gosto de gostar devagarinho, gosto que me vejam abrir a porta com os cabelos primeiro, depois com os olhos e no fim com o meu sorriso habitual. e de ser por mim que esperam. gosto de subir as escadas a saltar degraus, gosto de tocar, gosto de rir a meias, de tomar banho a meias, gosto de acordar com quem gosto, de descer ruas e cruzar rios, para ir outra vez adormecer nos braços de quem gosto. vivo muito mais do amor antigo do que este «Ã  la carte» que ainda por cima agudiza as saudades e mata a coragem de matar as saudades de viva voz. dantes, as cartas a tinta permanente, em dobras macias e eternas, demoravam o tempo todo do Sol e da Lua a cumprir-se, mas guardavam-se no cantinho do coração e não havia delete que as arrumasse na poeira do tempo. tenho pena que este prazer digital asfixie o sabor da pele, a luz macia da voz, os gestos do olhar, premiando olimpicamente a pressa do tempo numa espécie de pombo-correio em voo picado telecomandado por nós, eternos fabricantes de sonhos..


adaptado de Maria João Lopo de Carvalho _ vidasexpresso _ 27.07.2mil4

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