:: mar bravo

agosto 20, 2013



disse-te uma vez que não sou pessoa de mar calmo.
não gosto da água morna, do mar parado, das ondas de um palmo. essa quietude pode acalmar, mas não sossega. pode parecer que o mundo está seguro, mas não, está apenas acomodado. gosto do mar bravo, fundo, das ondas altas, cheias de corrente, que puxam e repuxam, que levam e trazem. gosto de mergulhar até ficar sem fôlego, quase sufocar, mas ter aquela sensação brutal de sair em direcção ao céu e sentir os pulmões a encher de novo. e mergulhar outra vez. 

há quem viva assim, nesse mar calmo, feliz na praia de areal liso, no sol certinho, sem brisa a incomodar. não sou melhor, nem pior. sou diferente. porque não me chega viver só o cómodo ou o bom. preciso do incómodo, do mais-que-bom, do inesperado, do limite. porque nada me faz trocar a brisa fria de sagres, pela agua quente do resto do algarve. nada me faz trocar o nevoeiro matinal de óbidos, pelo sol certinho da comporta. ou cheiro a sal e iodo da tocha, pelo areal confortável da figueira. 

levo a vida assim, o que é bastante confuso para quem vive ao meu lado. quando esperam que me acalme no mar morno, eu volto a fugir para a corrente. quase milagre é encontrar quem viva no mesmo limbo. quem tenha uma vontade férrea de lutar pelo que quer, que abandone o confortável, para ter o mais-que-bom, mesmo que correndo o risco de não chegar lá. mesmo que corra o risco de ser levado pela maré forte. mas que importa, tentaste pelo menos. abandonei de vez o padrão de viver na linha da água, a boiar, calmo e sereno. vou continuar a mergulhar contra a onda alta, de olhos abertos, a sentir o ardor do sal na pele, o frio do vento ao pôr-do-sol. a pele enrugada das horas demasiadas na água. disse-te uma vez que a minha alma era como a tua: não gémea, não igual, mas a mesma alma. brava, louca, entregue ao limite que sabemos existir. por isso vem, agora,  e mergulha comigo..  

:: amor imperfeito

agosto 20, 2013



ainda que fosse só a boa conversa, a química eletrizante, o sexo livre. ainda que fosse só a atração física, a admiração das ideias ou os beijos encaixados. você já me valeria a pena. mas não é. tem isso e ainda todo o resto. escuto as pessoas se queixarem repetidamente que o amor completo anda escasso no mercado. encontra-se, às vezes, só a beleza, a afinidade ou o sexo inesgotável. falta o resto. ou ainda, a paciência, o companheirismo, o aconchego. mas a incompletude, ainda sim, reina. e os pessimistas, dizem que não é possível achar alguém do jeitinho que você quer. alguém que te complete, que te baste, que te encante repetidamente. eu, insisto no contrário. porque amores incompletos, não saciam a fome. é como uma dieta só de proteína – você se sustenta por um tempo, se engana, inventa que o buraco no estômago está saciado – bebe água, fuma um cigarro. mas, a falta de carbohidrato, cedo ou tarde, pega. e você volta pro início.

eu nunca quis um amor perfeito. sempre quis mesmo foi um amor cheio de erros, que vão sendo alinhados durante o caminho. porque se tudo já começa certo, não vive-se o prazer da vitória. sempre quis um amor quentinho, daqueles de aconchego no fim de tarde, de colo depois de um dia de cão, de beijo no nariz ao acordar. sempre quis um amor livre - sem a ideia desajustada que um pertence ao outro. com menos regras ditadas - e mais pontos de vista ouvidos. sempre quis alguém com o qual pudesse fazer sexo sem regras - em nome das descobertas. porque sexo bom de verdade, é aquele com instinto e sem razão. sempre quis um amor com respeito. não daquele tipo das “moças de respeito” que querem seu património corporal preservado. sempre quis aquele respeito que te permite ver o outro como um outro ser - cheio de vontades e desejos. respeito é aceitar que o outro é diferente de você. sempre quis um amor que me fizesse crescer. porque o essencial, faculdade nenhuma ensina. o essencial aprende-se na troca de ideias, no debate, nos pontos de vista trocados. sempre quis um amor que me valorizasse: não somente pelas coisas quotidianas, mas principalmente pelas qualidades que poucos enxergam.

sempre quis um amor que me enxergasse. mas não que enxergasse somente as coisas óbvias - porque, de obviedades, a vida está cheia. sempre quis alguém que me enxergasse lá no fundo - e, ainda, sim, gostasse de mim. sempre quis alguém que quisesse ouvir verdades - e falar, também, na mesma proporção. porque meias-verdades não interessam. difícil mesmo é achar alguém que esteja pronto pra ouvir até o mais pesado, até o mais doído e retribuir na mesma moeda. sempre quis alguém que me achasse gostosa - mas que entendesse que gostosura, mora mesmo nas entrelinhas. sempre quis um amor que me mostrasse caminhos - invés de impor trajetórias. sempre quis um amor que não me reprimisse - pelo contrário, que me provocasse para que eu conseguisse mostrar o que vive escondido lá no fundo. sempre quis um amor que sonhasse. e que corresse atrás dos sonhos comigo. não por imposição, mas por vontade de seguir a mesma trilha.

sempre quis alguém que me ganhasse nos detalhes. alguém ao qual eu não conseguisse resistir. alguém que trouxesse brilho pros meus olhos a cada nova atitude, a cada nova ideia a cada novo sorriso. sempre quis alguém pra ficar junto - alguém que entendesse que pra estar junto não é preciso estar perto o tempo todo, mas sim do lado de dentro. porque a proximidade física nem sempre completa tanto quanto a do coração. e não sei se foi por insistência ou merecimento - mas esse amor veio. contrariando os que diriam que amor completo é coisa rara. e hoje, entendo, que o amor bom é o amor livre - que se recicla todos os dias como energia renovável. se vai chegar a ser, se vai durar ou o quanto vai durar - não sei. prefiro a provisoriedade completa, do que a permeabilidade vazia..


* daqui: http://www.casalsemvergonha.com.br/2011/09/26/eu-nunca-quis-um-amor-perfeito/.

:: do sabor

agosto 01, 2013



como distingues num beijo quando estás apaixonado e quando não estás?

quando dói. quando sentires o peito magoado de ansiedade e desejo. quando já não souberes lidar com as palavras, porque aquilo que sentes te transcende. quando o silêncio e a escuridão não forem incomodativos, nem embaraçosos, então podes saber que é algo a sério.
ai os beijos sabem a rebeldia. sabem a força, como alguém determinado a esmurrar uma parede, mesmo que não haja razão aparente para tal. mas também sabem a ternura e a carinho..
é uma mistura agri-doce de sensações, inexplicável, onde há como que uma luta entre algo selvagem e algo doce. por isso, sim, sabem a açúcar. mas também sabem a pimenta. e têm sempre um objectivo: mudarmo-nos, libertarmo-nos. desprendermo-nos e amarrarmo-nos ainda mais..'

' da bublles

:: lee fields, o bom sacana

julho 23, 2013



Lee Fields, marca registada, a fazer soul desde 1969, cedo nos impressionou com a sua capacidade quase olímpica de ginasticar tanto a voz quanto o corpo. não consigo deixar de matutar no facto de ser alguém com mais de 60 anos a dizer-me, a mim e a outros com idade para ser seus netos, "que comece a festa". o mundo deve estar virado do avesso.
sobressaía cada vez mais a discrepância entre o termómetro de Oeiras e o termómetro do artista afro-americano. tornou-se algo caricato observar, em simultâneo, uma multidão constantemente à procura de agasalho e um Lee Fields a livrar-se do casaco quase em jeito desesperado. talvez ele estivesse a sentir o amor doutra forma. de uma forma que (quase) mais ninguém ali conseguiu sentir..

o certo é que foi sob o signo ininterrupto desse amor que aquele concerto decorreu. tanto que o tema "Ladies" foi singelamente dedicado a todas as mulheres, em especial àquelas que ali estavam.
Lee Fields mostrou dominar na perfeição os dialetos do engate.
sejamos realistas: não é qualquer sexagenário que se vira para várias mulheres portuguesas e diz "não sei o vosso nome mas o vosso homem deve estar satisfeito".
mas atenção!, os dialetos que este senhor fala estão a milhas de distância do piropozinho que vem dos andaimes. não confundamos uma serenata reverente com um ritual de acasalamento sobranceiro e asqueroso. além de colocar sempre a mulher num pedestal, Lee Fields não escondeu o seu âmago exercitado, a sua sensibilidade antropocêntrica e o seu lado mais introspectivo.
quando se alia a rouquidão magnânima de um timbre que não cabe nas colunas do palco à perfeição técnica dos The Expressions, o resultado só pode ser um: ovação, ovação, ovação.



texto roubado d'aqui: lee fields fez corar muita gente

:: sisu

julho 16, 2013



para os finlandeses, sisu tem um significado místico e quase mágico.
sisu (pronuncia - see'-soo) é um conceito único finlandês que pode ser grosseiramente traduzido em inglês como a força de vontade, determinação, perseverança, ou a capacidade de agir racionalmente nos momentos de adversidade.
sisu não é coragem momentânea, mas sim a capacidade de sustentar a coragem ao longo do tempo. pode entender-se como "o que deve ser feito será feito, independentemente do custo". é uma forma de estar, uma espinha dorsal, e uma medida de integridade de quem supera as dificuldades e vai até ao fim de cada decisão. foi o que sustentou os finlandeses no combate das 42 guerras com a Rússia. que perderam todas.

mas sisu é também a qualidade que lhes permite rir de si mesmos, face às dificuldades.
ou seja, a capacidade de manter o queixo duro - para levar com o que correu mal -, mas sempre erguido e sorridente, para conseguir levantar e fazer o caminho. sem queixas, mas com a alegria de quem faz o que sabe que tem de fazer. mais que "atitude", ou "confiança", o que distingue o sisu é essa capacidade de manter a racionalidade, a inteligência e a boa disposição, mesmo no pior dos cenários.

não tenho nada de finlandês, mas sisu é algo que definitivamente me define.
a capacidade (formada pela vida) de perante as dificuldades, conseguir primeiro rir - para respirar -, a seguir analisar as hipóteses disponíveis e, rapidamente, executar o caminho possível. sem me perder em ilusões de soluções óptimas, mas sim, nas possíveis e executáveis. tem muito a ver com a perseverança de aguentar os momentos maus, para que cheguem os bons, quando sabemos que caminhamos no sentido certo.

deviam ensinar isto, não na escola, mas em todas as famílias. 
a mim ensinaram-me pelo "ver fazer". no trabalho, na carreira, nos amores, na vida.. 


:: porque estou sozinha?

junho 06, 2013



com a idade, na cabeça das mulheres sozinhas (solteiras ou separadas),
 surge sempre uma pergunta traiçoeira, tipo auto-veneno: porque estou sozinha?..
a coisa não é vista como um desafio, mas como auto-destruição: é porque não sou interessante, é porque fiz sempre escolhas erradas, é porque ninguém me atura - e mais um rol de frases feitas que apenas levam a auto-estima ao charco. 
pior é o passo seguinte:  porque não encontro ninguém? e lá vêm mais um numero chato de repetições monótonas: porque há menos homens que mulheres, porque os bons estão todos casados, porque os interessantes nunca estão disponíveis, porque os que me envolvo são todos idiotas, porque os que me apaixono nem olham para mim. o que leva à "the million-dollar question": e como é que eu conheço homens com esta idade?

ponto prévio: estarem sozinhas não é defeito!
para todos os homens solteiros, é uma bênção até!! a questão reside em saber viver com essa "solidão":  saber estar sozinho é uma virtude. e uma atitude. implica autonomia, capacidade de auto-valorização, e - o santo graal - uma grande capacidade de gestão do tempo e das pessoas: especialmente quando estamos sozinhos, temos de saber gerir muito bem os tempos de quem nos rodeia. labelizar os nossos amigos, perceber os seus tempos e como encaixam na nossa agenda. saber gerir as vontades, os perfis, e as motivações. esqueçam o all-in-one e percebam quem é a melhor companhia para cada momento. a coisa bem planeada nunca vos vai faltar amigos, programas e festas. e assim fica a resposta para "como é que eu conheço homens com esta idade?" simples, quanto mais agenda preencherem, maior a probabilidade de a coisa acontecer. sim, não procurem, ela vai acontecer. marcar jantares a dois com o vosso melhor amigo? errado!! façam o oposto: vão com ele à festa de anos do primo, ao jantar da empresa dele, ao concerto com as amigas dele. a probabilidade de se cruzarem com um amigo interesante e desconhecido é maior nestes momentos de "tribo". sim, a zona de conforto do jantar a dois é maior.. mas ninguém disse que a vida é fácil e sem riscos.

mas o mais importante, sejam vocês e o vosso brilho, estejam sozinhas ou acompanhadas.
gostem-se, arranjem-se, mimem-se. e entreguem-se. aproveitem estarem sozinhas, o que permite acima de tudo viver muito mais pessoas, mais sítios e mais experiências. apaixonem-se loucamente, não pensem demais, não questionem antes de tempo, não acelerem, mas também não atrasem. e estejam muito atentas: se a vida vos abre uma porta - e abre muitas - sejam curiosas, conheçam, descubram. vivam. o pior que pode acontecer é correr mal. mas pelo menos viveram. se correr bem, é o bingo da vossa vida. boa sorte então!
mal mesmo, estão as tantas mulheres (e homens) que, mesmo casadas ou juntas, questionam-se ao fim de cada dia: porque estou sozinha?

:: dejá vu

junho 04, 2013



~ pa ra ra ra ta ta
há pessoas assim: desconcertantes. que fogem do ritmo.
aceleram os processos normais, quebram as regras.
e deixam-nos fora de tempo. como esta música
~ ta ra ra ta ra 
deixam-nos perdidos por serem tão iguais. dissonância cognitiva.
não sabemos classificar,  labelizar, arrumar na etiqueta mental
~ tu ru tu tu pu 
sabemos que já vimos algures, já lemos, já conhecíamos.
de algures. se calhar cá de dentro. da imaginação.
~ if se te pa du tou 
ou será que somos nós. ao espelho, reflexo conexo.
reflexo que enche as medidas: narcisismo puro ou alma gémea?
~ ta ra ra ra da ra. a ring? 
bêbados de alma, enchemos o peito com a partilha:
as palavras, os sons, a vontade. o desejo. o carinho – mútuo.
~ ça cest vrai. d’accord pa ra ra ra
e seremos assim tão próximos para sempre?
ou só neste preciso momento em que os astros coincidem. por horas apenas.
~ da da da da. da da. 
nao interessa. seize the day. vamos estando. gerundio mais que perfeito.
no plural da primeira e segunda pessoa.
~ duuuu da da da 
e fica o travo na boca. como quando se sente o ultimo gole do vinho.
a ultima pegada na areia. o ultimo raio do por so sol.
~ tu tu tu pu ru da ru 
ou o travo que se houve depois da musica: o do silêncio.
onde, mudos, dizemos o que nao temos palavras para dizer.
~ pa ra ra …. sha ta!

:: teoria do hotel

junho 04, 2013



há alturas, como agora, em que passo várias noites quase seguidas em hotéis, e por mais que goste de hotéis, e gosto, experimento uma espécie de inquietação. investiguei um pouco essa inquietação trazendo comigo para um hotel um ensaio chamado “Hotel Theory” (2007), de Wayne Koestenbaum, onde se diz, a certo ponto, que um hotel é uma ideia de casa e uma ideia de futuro.

uma ideia de casa por ser o contrário de uma casa?
um hotel é passageiro, inautêntico, hostil, alienado, nesse sentido diferente de uma casa, mas um hotel pode ser mais confortável do que uma casa, pode ser mais seguro e mais privado do que uma casa. eu não diria que o hotel é o contrário de uma casa, talvez nem me importasse de viver num hotel, mas acho que uma casa “vale” mais do que um hotel, que tem um valor estimativo que é um valor simbólico:
- a casa de certo modo representa “a vida” e um hotel é uma suspensão na vida. isso aproxima-nos da ideia, intrigante e contestável, de que enquanto a “casa” é um elemento feminino e maternal, o “hotel” é masculino. há certamente nos hotéis uma espécie de experiência (vaga) de aventura que eu geralmente identifico com o masculino, isto é, com a diferença e a mudança. o hotel não é bem um lugar, é um não-lugar, um sítio, uma colecção de escadas, piscinas, sofás, elevadores, camas, cortinas, televisores, banheiras, garrafinhas de uísque..

o que é então o futuro num hotel, que futuro é esse?
talvez nem haja um futuro mas apenas um horizonte. o horizonte num hotel é a data de saída. o “check out” é o nosso futuro, faz sentido. que poderemos nós ver além disso, naqueles sítios hospitaleiros e inóspitos, imaculados e anónimos, automáticos, previsíveis, luxuosos, efémeros? um quarto tem mais personalidade do que o ocupante de um quarto, esse é mutável, muda, é mudado. quem é observado é quem fica num hotel, observado por si mesmo, em espelhos demasiado grandes e cruéis, em vidraças ao cair da noite enquanto recebe um telefonema, com a luz gelada do minibar e por cima uma natureza morta de imitação. e então, às 2.45, o futuro é talvez aquilo que diz Greta Garbo em “Grand Hotel”:  “I want to be alone”. 


[ Pedro Mexia ]

:: viver é ter dúvidas

junho 03, 2013



quando você não tiver mais dúvidas, desculpa, mas você morreu. 
viver é ter dúvidas e ser atormentado por elas a cada passo do caminho. sim, existem milhões de mortos vivos que levam aquela vida sem pensar muito no assunto. pensar muito é se desesperar sempre. não existe pensar sem questionar, sem duvidar, sem criar. mas tem a parte boa. a de que pequenas cenas do cotidiano adquirem duplo sentido. nada é o que parece. tudo está ali, na sua frente por alguma bendita razão de ser. dependendo de como são os seus dias, dá até pra enlouquecer.

ter uma vida assim subjetivada pode, então, ser fascinante e ao mesmo tempo angustiante.
e embora por vezes me encontrei invejando a vida senso comum de um servidor público, a única certeza que tenho é que prefiro sim pensar.
viver pra pagar contas, comprar comida e viajar no fim do ano? ou viver para começar de novo, independente do término ou início de cada ano. e quando você pensa, você pode se moldar o quanto for, uma hora a ficha cai. você arruma suas coisas e vai embora. embora da cidade, embora de casa, embora de um modo de pensar sufocante.

por isso as mulheres, deveras mais subjetivas que os homens, sofrem mais. elas não tem o botão Homer Simpson. a maioria, nem todas, claro, pensa demais. dito isso, Deus salve Pedro Almodóvar. o cara que veio para representar a mulher no cinema muito além da femme fatale.
acho que a mulher é exatamente aquilo que ele passa para as suas personagens: louca, sexy, chata e inteligente demais pra não sofrer. 

 pat rules? mais um copy do "Ora, Bossa!".

:: original

maio 29, 2013



nos dias que correm, cada vez mais imediatos, partilhados e padronizados, a tendência é para o afunilamento de padrões. uns são nerds dos computadores, outros são intelectuais das letras, outros fito-desportisto-atletas. há ainda os viajantes profissionais, os preguiçosos intencionais, os mil fashionistas, os swagger's emprestados e os novos winelovers. para mim, não passam todfsas das mesmas ovelhas que seguem o carreiro do caminho, todas com a mesma cor, o mesmo gosto. cansam-me. porque o que gosto mesmo são dos outros, dos que mantêm o que são, seja qual for a moda. daqueles que tem um toque que é a sua marca. não é só o que são, como são, ou como vivem, mas aquele toque especial que lhes dá uma piada única, ou um estilo próprio, ou até mesmo aquela irritação boa, quase de estimação. porque as pessoas verdadeiramente interessantes tem um toque que se adivinha, que se percebe, que se antecipa. um toque que não se vê, que não se consegue descrever, mas que se sente..

gosto daquelas pessoas que tem sempre o seu estilo, estejam na festa mais deslumbrante, ou apenas caídos, ali na relva de um jardim. as que dançam a música, não por quem canta, mas pelo que canta. que sabem conversar horas, de todos os assuntos, mas sem nunca se levarem muito a sério. que são bonitas, não pelo que exibem, mas pelo que guardam em si. e, gosto ainda mais das que sabem reconhecer - e apreciar - esse toque nos outros. porque não há nada que me deixe mais feliz, do quando me dizem 'vê-se logo que foste tu que fizeste', ou 'tinhas de ser tu a descobrir isso'. e isto, não é porque somos melhores ou únicos. é o contrário, é mesmo na nossa imperfeição, nos nossos defeitos, termos sempre um vinco que deixa a nossa marca boa. seja a forma de rir quando estamos a dizer parvoíce, ou a forma de abraçar quando dizemos que gostamos, até a forma de ocultar (por carinho), quando fugimos aos problemas. ou aquela forma de cuidar, sempre atenta aos pequenos sinais, cheia de pequenos gestos que se tornam grandes, pela simples forma se saber estar: presente.

hoje, sei que o que distingue os grandes amores é a sintonia nestes pequenos toques, que fazem do mais normal dos dias, um momento sempre especial. é saber que se tem uma pessoa bonita e especial à nossa frente, mas que são os grandes detalhes que a fazem nossa paixão. coisas simples, como a forma de tomar café, ali meio a cair do balcão entre pernas encruzadas, seja em que casa for. ou ir às compras, e fazer sempre daquilo uma diversão, seja na loja mais in, ou no supermercado mais out. é haver sempre uma musica nova que é tão nossa, seja de quem for. é o cheiro da pele fresca da manhã, sempre familiar, seja em que banho for. é a forma como adormeces no meu peito, seja em que cama for. é o brilho do olhar no outro, que se reconhece quando está feliz, seja a que distância for. e sabes, é o nosso toque, que nos deu esta forma tão improvável de sermos iguais. porque somos almas que vivem da mesma forma: entregue. não apenas ao outro, mas ao tanto que sabemos que vamos viver com o outro..

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